O dominó da crise global
Jornal do Comércio
11/08/2011
Quando as principais bolsas de valores do mercado mundial despencam em um mesmo movimento, o sobressalto toma conta da economia globalizada. E o mero temor de notícias piores se transforma em péssima notícia, que desencadeia o nervosismo na praça global. O remendo aprovado no cobertor curto da dívida norte-americana não foi o bastante para afastar a pesada nuvem negra que paira sobre as finanças globais. Parece, pelo contrário, que foi o estopim de mais uma onda de pânico, presságio ou não de crise de maiores proporções. Pela primeira vez em setenta anos, a agência Standard & Poor (S&P) promoveu o rebaixamento da qualificação da dívida dos Estados Unidos, o que pode ter causado a queda nas bolsas no começo da semana. O que era considerado o investimento mais seguro do mercado internacional passa a valer menos, para a S&P, do que os bônus emitidos por países como França, Inglaterra e Alemanha. Trata-se, na prática, de um rebaixamento de confiança. Para a agência, o corte de US$ 1 trilhão prometido nos gastos oficiais por Obama até o final do ano é quatro vezes menor do que o necessário para começar a arrumar as contas do país. Nesta visão, a bola de neve fiscal não será contida tão cedo. Se as outras duas agências de risco seguirem a mesma trilha, aprofunda-se a crise. Com uma taxa de desemprego acima de 9% e o assanhamento do Partido Republicano, que acirra o clima político, os EUA do democrata Obama enfrentam turbulências que ameaçam se estender para o resto do planeta - inclusive para a China, que mantém 40% de suas economias em títulos da dívida americana. O governo chinês fustiga o modo de vida americano, mas sabe que a sugestão de que os EUA aprendam a se virar com seus próprios meios não funcionaria nem lá. Parcela considerável da indústria chinesa está voltada para o consumo externo, e se faltar consumo do lado de fora, sobrarão problemas do lado de dentro. Cada vez mais, a interconexão dos negócios globais se estreita, de tal forma que a dívida de uma nação vira preocupação para todas as demais. Ao receber o primeiro-ministro do Canadá em Brasília, na última segunda-feira, a presidente Dilma Rousseff chamou a decisão da agência, que desvalorizou o crédito americano, de "precipitada e incorreta". O canadense endossou a declaração. Segundo o governo, o Brasil dispõe de US$ 350 bilhões em reservas internacionais, e US$ 420 bilhões em reservas nacionais, para evitar que o dominó da crise chegue com força por aqui. Na Europa, duas economias de peso também sofrem com dívidas monumentais. A Espanha e a Itália terão que tomar emprestados cerca de US$ 350 bilhões até o final do ano. Em entrevista à Folha de S.Paulo, o ex-presidente do Banco Central, Gustavo Franco, disse que a crise mostra o quanto os níveis de endividamento público ultrapassaram os níveis de responsabilidade fiscal. Para Franco, os gastos precisam cair no mundo inteiro, até no Brasil, que não deve se achar protegido, uma vez que possuímos um quadro fiscal tão problemático quanto os países ricos.
quinta-feira, 11 de agosto de 2011
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